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PEQUENAS ESTÓRIAS, Renato Tardivo
 

renatotardivo.blogspot.com

 

         Iria postar um texto em que procuro articular a série de fotografias de Auschwitz, recentemente veiculadas no site do Museu do Holocausto, ao filme Querô, de Carlos Cortez. No entanto, devido a problemas no computador em que o texto ficou gravado, ainda não pude publicá-lo.

         Mas aproveito para comunicar que o endereço deste blog irá mudar para renatotardivo.blogspot.com 

         Por favor, atualizem os links e continuem aparecendo: são sempre muito bem-vindos.

 



Escrito por Renato Tardivo às 00h11
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A crônica que não escrevi

 

         Quando aceitei a proposta, sabia do risco em me envolver na maçada em que estou agora. Mas, por outro lado, uma pequena e intensa convicção de que um jeito eu sempre haveria de dar me manteve cumpridor dos prazos. Até hoje.

         Quando o diretor da Redação me ligou fazendo o convite, desconfiei que fosse trote. Ser pago pela alcunha de cronista era tudo o que eu sonhava. A obrigação – um texto por semana de temática livre –, a coisa mais divertida do mundo.

         E assim foi, por algum tempo. E acho que deu certo – ou dava.

         Não sei se para o bem, para o mal ou para nada, hoje a coisa emperrou. Ainda por cima, não possuo aquelas cartas na manga (ou no arquivo) para suprir necessidades de última hora. Sou muito novo para isso.

         O prazo para o envio do texto desta semana termina em poucos minutos. Já penso no que vai acontecer, a mim e à publicação. Decerto uma nota de caráter excepcional será incluída pelo editor à última. Mas, e quanto à minha (incipiente) reputação?

De duvidosa que sempre foi, passará a desastrosa. “Mal começou a carreira, desandou” – é o que vão comentar, já posso até escutar –, “essas e outras notícias em instantes, no Jornal Matinal da sua Rádio Original. Bom dia!”.

Ah, o rádio-relógio. Ufa. Para variar, era um sonho. Enviei o texto ainda ontem, absolutamente dentro do prazo – é o que digo a mim mesmo, só para me certificar, ao desativar o alarme. Minha carreira não está perdida. Não ainda.

Penso no dia que ainda vai ser enquanto escovo os dentes. “Cabeça vazia, casa do diabo” – não sei por que, a expressão me ocupa a mente. Resignado, enxáguo o rosto e, ao me olhar no espelho, acho que entendo.

É que ando a levar muitos sonhos na cabeça. Não são todos que compreendo, está claro. Sei, no entanto, que, em determinado ponto de cada um, eles todos se encontram. Posso até visualizar uma massa amorfa de sonhos.

É então que o apito do despertador, sempre abrupto, finalmente me acorda. Foi tudo um sonho. Além do mais, nunca consegui despertar ouvindo rádio – por que fui sonhar com isso? Sonhei que sonhava. Isso sim, uma maçada.

Mas não é que até me vejo um cronista de jornal ao entrar no banho? Imagina, cronista de jornal... embriagado de sono, eu rio no chuveiro. Uma notícia no rádio – agora ligado, porque tomar banho ouvindo rádio eu consigo – me interrompe o riso.

Trata-se do presidente Lula, defendendo (do estrangeiro) a aprovação da CPMF, afirmando que a absolvição do senador Renan Calheiros não implica impunidade, além de outras coisas, acho que sobre combustíveis. Já não presto mais atenção porque me pergunto se eu não estaria, mais uma vez, no mundo dos sonhos.

E não encontro a resposta. Mas não importa muito. Saio do banho, desligo o rádio e mergulho na massa amorfa que é este mundo.

 



Escrito por Renato Tardivo às 12h59
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Severidade em Santiago

 

         Santiago (2007), documentário de João Moreira Salles, faturou prêmios importantes em festivais pela Europa, incluindo o Festival Du Réel, em Paris – para muitos, o reconhecimento máximo que um documentário pode receber. Esses prêmios motivaram o diretor a exibir o filme em circuito nacional.

No entanto, ele adverte, o documentário estaria em poucas salas. É que se trata de temática muito pessoal, e ele julgava que apenas sua família se interessaria por ela.

É sugestivo que, em São Paulo, Santiago só esteja em cartaz no Espaço Unibanco. Qualquer relação com a família Moreira Salles, nesse caso, não é mera coincidência: um filme de casa se exibe em casa.  

         Santiago, que dá nome à história, foi mordomo na mansão dos Moreira Salles – a casa da Gávea – por trinta anos. Sua personalidade afetuosa e extremamente peculiar marcou a infância dos filhos do patrão – Walther Moreira Salles.

         Tudo começa quando, dez anos após ter deixado a casa da Gávea, João, um dos filhos, ao completar trinta anos, decide revisitá-la. Com sua câmera, ele volta ao lugar em que cresceu. À casa que se confundia com seu maior guardador. Santiago.

         É por isso que ele aporta também no pequeno apartamento onde o ex-mordomo passaria, aposentado, os últimos anos de sua vida. E colhe, em cinco dias, aproximadamente nove horas de um rico e belo depoimento.

         Roteiro, decupagem, filmagem. Tudo ia bem... até a montagem. É que na sala de edição o filme não funcionou. Não aconteceu.

As imagens com Santiago foram captadas em 1992. O filme foi abortado um pouco depois. Assim como um pouco depois morreria, aos oitenta e dois anos, o seu personagem: “a grande partida”.

         Recentemente, o documentarista retomou o projeto. E desta vez o filme aconteceu.

         Porque Santiago não é o documentário pensado quinze anos antes: um projeto que, interrompido, é levado adiante do ponto em que parou. Ao invés disso, trata-se de um documentário sobre o documentário que não houve. Sobre o filme que, na sala de edição, não aconteceu. O material de montagem do primeiro projeto dispara o trabalho de criação de um novo roteiro. Salles, então, revisita sua própria (não) produção.

Intrincado a esta fórmula, agora aos quarenta e poucos anos (não mais aos trinta), João Moreira Salles retorna amadurecido à casa da Gávea e ao riquíssimo universo de Santiago. Assim, ao voltar o olhar para o seu próprio projeto, ele não realiza um documentário – como seria antes – sobre o mordomo da família, senão sobre a sua própria vida (dele, cineasta). E, por conseguinte, o mergulho na figura de Santiago é ainda mais intenso, mais verdadeiro. Encarnado.

Os planos de Santiago – o homem – são “severos”, influenciados, segundo o diretor, por determinado cinema japonês. Mas essa severidade, que se volta a si mesma e é com freqüência bem-humorada, não se limita às cenas com o ex-mordomo. Ela permeia todo o filme, esteja em foco Santiago, esteja em evidência, por meio de uma voz em off, o “narrador-diretor”. Tomando-se as partes pelo todo, não se demora a perceber que Santiago é um documentário severo.

As imagens da memória são porosas. E em preto-e-branco. Poros que se infiltram em outros poros, memória que constrói mais memória, trinta mil páginas de histórias, da História.

Nada mais coerente que o projeto abortado tenha servido de embrião ao documentário enfim concretizado. Santiago é, de trás para frente, um filme de processo. E por isso, como não poderia deixar de ser, um cinema severo.

 



Escrito por Renato Tardivo às 00h45
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Bobagem

 

         Mas será que a moça não vê que eu estou comendo nesta mesa? Estranho. Decerto foi treinada para colocar em ordem todas as cadeiras de todas as mesas desta praça de alimentação. Mesmo nas mesas em que o cliente ainda faz a refeição. O que mais podem inventar?

         Ah, não é possível. Uma menininha oriental se aproxima. Pára exatamente ao meu lado. Quer que sua mãe, seu irmão maior e também seu pai, que vem um pouco atrás, quer que toda a família se sente justamente na minha mesa. Não vê que já está ocupada? A mãe parece se tocar. Eles passam reto.

         Para que correr no fim da tarde se agora me empanturro de comida gordurosa? A resposta vem em alemão. É que três gringos, com caras de gringo, roupas de gringo e idioma de gringo encostam na minha mesa como se ela estivesse vazia. Começo a acreditar no improvável: eu não sou visto.

Bobagem. É só uma refeição solitária em uma praça de alimentação do shopping. Nada mais pós-moderno.

Mas bem que eu podia escrever um texto, um conto talvez, em que o personagem de uma hora para outra deixa de ser visto. Eu, o personagem. Bobagem. Tema batido. Pós-moderno demais.

Nunca tinha pedido este número. O sanduíche até que é bem saboroso, mas o que acho das cebolas empanadas, ao invés das batatas de sempre, eu não tenho tempo para refletir, porque sou tomado por um formigamento estranho nas pernas e me assusto. Bobagem, é o desgaste da corrida.

Mas o formigamento se estende por todo o corpo. Chega aos olhos. Eu não sou visto, porra. Tenho certeza. Olho ao redor... Eu não sou visto.

Começo a acreditar no mais improvável ainda: estou morto. Decerto uma bala, em uma troca de tiros no estacionamento, me atingiu em algum ponto letal. Ou meu coração, novo e sempre cansado, escolheu o perfeito cenário para o seu maior número: parar de bater. Não sei, mas acho que estou com medo de ter morrido.

De todas as possibilidades, a única. Estou morto. Sensação que se transforma em constatação quando acontece aquilo que agora era o mais esperado e mais improvável que o ainda mais improvável.

A cadeira em que estou sentado é puxada para trás. Um senhor gordo senta-se nela. Ele se acomoda a uma distância confortável da mesa. É tudo muito estranho. Vejo o mundo com outros olhos. Estou vestido de outra pessoa. Sou um fantasma.

Um fantasma, e acordo. Estou pelado. De pau duro. Apertado para ir ao banheiro. Mais apertado ainda de angústia. Sabe lá o que é se sentir morto de verdade, vigiado por toda aquela multidão que não me via? Assombrado por todos os fantasmas da minha vida e da minha morte. Eu preciso mijar.  

  

                        



Escrito por Renato Tardivo às 11h14
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Nada, de novo

     

Fala-se muito na importância do contexto ou do ambiente para a recepção estética em quase todas as modalidades de arte. Por exemplo – talvez o mais famoso deles –, como pensar o Louvre sem a Mona Lisa, e vice-versa? São outras evidências: salas de teatro (tradicionais ou modernas), os cinemas (circuito alternativo ou comercial), instalações incrustadas no centro de determinada cidade, enfim, em todos esses casos, considera-se que o lugar a partir do qual a obra é exposta influi em sua recepção. Até aqui, nada de novo.

Mas, e quanto à literatura?

Talvez por causa da mobilidade do livro, é muito incomum, para não dizer que nunca acontece, ouvir falar no ambiente em que ocorre a recepção enquanto fator importante da experiência estética.

É evidente que, nos momentos de leitura, busca-se um local confortável, normalmente silencioso. Ou pode também ocorrer o inverso: a intenção ser justamente escapar do barulho das ruas, do sacolejo do trem, da bagunça do ônibus, e mergulhar na atmosfera silenciosa do livro.

Mas Dom Casmurro é sempre Dom Casmurro. Não se consideram diferenças entre este romance machadiano lido em uma biblioteca, no sofá da sala de estar, na cabeceira da cama, na praia etc.

Tomemos um caso, meu e recente. Voltei de férias com um livro por acabar. Havia começado sua leitura imerso na atmosfera extremamente singular daqueles dias. Eu voltei, o livro voltou, mas a leitura, emperrada, parece que ficou por lá.

Estou certo de que o irei terminar antes das próximas férias. A mesma certeza não tenho quando me pergunto se o livro, ainda por vir, é o mesmo que eu comecei a ler.

Aliás, eu a tenho, sim. E a resposta é não: um livro sempre são muitos. Mas percebo que fracasso na construção desta crônica. Porque, de novo, não há nada de novo nisso.     



Escrito por Renato Tardivo às 14h07
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MICROCONTOS (no máximo, 50 letras cada)

 

O mar aberto depois da chuva antes do fim

 

 

 

 

Impossível

Te dizer o que eu nunca soube escutar

 

 

 

 

      Foi até si mesmo

                                     e voltou.

 

 

 

 

Só, no espelho:

- Quem são os dois estranhos?

(Eram seus olhos)



Escrito por Renato Tardivo às 11h27
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A maior tragédia

 

         Em postagem recente, menciono meu incômodo com a postura de parte da oposição ao governo federal. Fico, no entanto, apenas na menção e acabo falando de algum outro assunto – certamente menos importante. Como pouco importante é minha opinião sobre este ou qualquer outro fato. Mas, teimoso que sou, aqui vai ela.

         Antes, um esclarecimento. O incômodo com parte da oposição, por mais que para alguns seja inconcebível o que vou dizer, não é reflexo de satisfação com a situação. Absolutamente. Agora, inconcebível é o caminhão de hipocrisia com que parte da opinião pública tenta escancarar a outra hipocrisia – do governo.

Movimentos, em sua maior parte elitistas, como o “Cansei”, encabeçado por João Dória e endossado pela OAB-SP, por exemplo, se transformam em piada no exato momento em que seus representantes afirmam não se tratar de uma organização política ou partidária. Como não? É evidente que o sejam. E não haveria problema se isso fosse dito com a mesma transparência que eles tanto exigem dos governantes.

Um parêntesis. É tolice pensar que Lula governa para os pobres, bem como reduzir as polêmicas envolvendo o presidente ao embate entre elite e excluídos. Porque, na prática, Lula governa justamente para a elite.

Não fecho propriamente o parêntesis, mas tento amarrá-lo ao resto do texto. Dizia que Lula governa eminentemente para as elites. Mas a burguesia, que ainda fede e sempre vai feder, como cantava Cazuza, prefere um economista gabaritado ou um médico de boa família ocupando o cargo máximo do país, ou na verdade qualquer outro cargo, a Lula. Alguém discorda?

E aí a questão se complica, para não dizer se perde, pois uma infinidade de fatores entra em jogo: desde o arraigado preconceito de classe, até as diferenças legítimas entre as convicções políticas. Então, este é o ponto crucial, no meu entender, das críticas atuais ao governo. Falta cunho editorial; falta mostrar as caras; falta a elas transparência.

Ora, não é de hoje que o brasileiro está cansado. Tome-se o exemplo do Pan, no Rio. O deleite de quem na abertura dos jogos vaiou o presidente só foi possível graças a um rombo estupendo no orçamento da brincadeira (com a conivência do próprio, diga-se). Ponto para Lula? Claro que não. Ponto para ninguém. Mas disso a elite parece não estar cansada.

O presidente da OAB-SP, aliás, representa (ou representou no início do processo – parei de acompanhar e não me resta a menor vontade de pesquisar agora) aquele casal de bispos brasileiro detido nos EUA. Todos sabem do que estou falando. No entanto, ele finalmente se cansou e resolveu liderar um movimento pelo Brasil. Por favor, é piada.

Não vemos a elite cansada com os problemas da seca no Nordeste, situação que sequer custaria muito para ser resolvida. Não vemos essa elite preocupada com os lugares para os quais vão arrastar (e muito menos dos quais vieram) os indigentes que poluem as esquinas do bairro e assustam a comunidade – mas urge que eles sejam retirados. O caos aéreo é trágico, realmente. Entretanto, não é o principal problema, ou o único, deste país – qualidade com que vem sendo tratado.

A elite só aparece quando lhe convém. Este governo precisa, sim, de oposição. Mas de uma oposição transparente e coerente. Não se chega a lugar algum se não nos propusermos a sair dos nossos. Mas, para isso, há que se saber quem somos nós. Esta a maior tragédia, talvez.



Escrito por Renato Tardivo às 02h43
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Trecho do conto "Analgésico"

 

         "'Para saídas a estabelecimentos comerciais, tecle 2. Para saídas a estabelecimentos recreativos, tecle 3. Para saí...

Dois.

         Para saídas a supermercados, tecle 2. Para saídas a farmácias tecle 3. Pa...

Três.

         Aguarde um instante, por favor.

         Atenção para a sua rota. Saia de casa em oito minutos. Caminhe em linha reta seguindo uma angulação de aproximadamente dez graus em relação à calçada. Sua velocidade deve ser de dois passos por segundo. Tenha um bom trajeto.'

         Desligou o telefone. Oito minutos. Tempo para tomar mais uma xícara de café, usar sem demora o banheiro e, se fosse o caso, aguardar com segurança pelo tempo de saída exato na portaria do prédio. Talvez valesse a pena levar também um livro. Ele teria de, ao deixar a farmácia, solicitar autorização para o retorno. Isso podia demorar."

       

 



Escrito por Renato Tardivo às 00h33
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Quando se escondem as palavras...

 

 

     

  

 

       



Escrito por Renato Tardivo às 10h32
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Escrita viciada

         Quem sabe, se voltando a digitar com “Times New Roman”, eu reaprendo a escrever crônicas, no sentido mais tradicional que ao termo possa caber. Textos impessoais, preocupação com a técnica, pretensão jornalística etc. etc. Exatamente o que  já começo a não fazer.

Não sei se com êxito, mas que escrevia crônicas, escrevia. Certamente, o pouco que aprendi foi lendo. Dependendo do ponto de vista – e da quantidade de trabalho na semana –, talvez seja correto afirmar que eu lia mais jornal àquela época. Ia direto aos editoriais e crônicas assinadas. Fez parte daquele começo de vida adulta em que descobrimos o mundo.

Hoje me peguei pensando nisso tudo. Recebi um e-mail de muito mau gosto com críticas ao Lula. Para ser breve, formato “Veja” da pior qualidade. Não vou entrar no mérito das críticas. Não propriamente. Antes, preciso dizer que este formato muito me incomoda. Parecem estar em jogo, mais do que a preocupação com o futuro do país, questões pessoais, rixas partidárias e, no caso de Lula, é inegável, um preconceito bem à brasileira. Chego a questionar, sinceramente, quem falha mais.

Enfim, o fato é que o e-mail me fez querer redescobrir aquela escrita, já antiga. De algum modo, a despeito da técnica e da pretensão, tratava-se de uma escrita menos viciada, mais pura, ingênua. Não foi desta vez, percebe-se.

Nesse caso, postarei um texto escrito em 2003 para o então Jornal do Cursinho (da faculdade de Psicologia da USP). Já se vão quatro anos. Tempo à beça. O texto mesmo é datado. (Ou nem tanto assim.)

A forma bem que podia ser atemporal...

 

 

Está tudo igual. Normal?

 

            Até que demorou muito. Mas, finalmente, seis meses após assumir o Palácio do Planalto, o governo do PT enfrentou, pela primeira vez, no começo de junho em Brasília, uma grande manifestação nas ruas.

            As taxas de juros estratosféricas e a continuidade da política econômica neo-liberal do governo FHC já vinham provocando mal-estar dentro da ala radical do próprio PT, em diversas entidades e em muitos eleitores. Afinal, a esperança não havia vencido o medo, companheiro Lula?

            No último mês, o estopim não tem sido outro senão a reforma da Previdência. O protesto de 11 de junho reuniu cerca de 25 mil servidores públicos na Esplanada dos Ministérios contrários à reforma, que, se aprovada, implicará reduções nos valores de suas aposentadorias.

            É bem verdade que os gastos do governo com a Previdência representam enorme rombo nas contas públicas, tendo-se em vista que a contribuição individual dos segurados cobre apenas 30% do custo dos benefícios, sendo os restantes 70% cobertos pelos impostos pagos por todos. A questão é realmente polêmica, e fica aqui levantada.

            Entretanto, o que mais provoca estranhamento é o fato de o PT, gerado nas greves operárias contra a ditadura, ser alvo de manifestações de uma oposição da qual sempre fez parte.

          Nota-se que, mais uma vez, ao ser eleita para governar o Brasil, a oposição adota as mesmas condutas seguidas pela antiga situação, que tanto combateu. Os manifestantes na Esplanada dos Ministérios pareciam dizer: “Até tu, Brutus?”.

 



Escrito por Renato Tardivo às 00h51
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Olhos que gritam

 

Olho seus olhos que gritam

E calo

Me dobro cá dentro em piche – negrito

Desespero diminuto e infinito diante de um trem que não

                                                                               [pára

Nunca

 

Um jorro branco e quente lava os seus olhos

Que gritam, e eu acredito

Plenitude: em dias de ressaca – calmaria

Mas sempre... o fluxo ininterrupto do tempo

Do trem

 

Olho seus olhos que gritam

O incansável escoamento dos trilhos

Olho seus olhos

E como é bonito, o trem da minha vida.

 



Escrito por Renato Tardivo às 16h56
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Novas fotografias do passado

 

         Hoje fui assistir a “Não por acaso”, filme nacional de estréia de Philippe Barcinski. Desde que vi pela primeira vez o trailer, fiquei com muita vontade do resto. Do todo.

Talvez por supor que a história era bonita. Talvez porque me pareceu se tratar de um filme experimental em alguns momentos. Ou mesmo pela soma desses dois fatores, que, de fato, fazem de “Não por acaso” um bom cinema: nem mais, nem menos.

         Ao experimentalismo da linguagem, acompanha-se o experimentalismo das personagens. Cada qual a seu modo, e tendo por espécie de “marco zero” um acontecimento específico, as personagens das duas histórias que compõem a trama se permitem correr riscos.

E, assim, revelam novas fotografias do passado. Mas nem por isso irreais. Ao contrário, neste filme sem protagonista, é a realidade a atriz principal. Um misto de realidade externa – uma São Paulo tão verticalizada e cheia de vias (veias?) quanto antiga – e subjetividade das personagens, de modo que não se sabe quem determina o quê.

Da mesma forma que me pego pensando no porquê de mais um texto sobre cinema. Confesso: não queria. A idéia original era escrever sobre o “acaso” que vivi momentos antes de sair para ver o filme.

Recebi um e-mail com alguns slides antigos do meu avô. Fazia tempo que não contemplava sua figura. Bateu uma baita saudade. Curtindo ou sofrendo esse sentimento, abri o e-mail seguinte. Era uma foto do meu filho.

Olhe, é pena não conseguir expressar o que se deu aqui dentro. Porque, se o pudesse fazer, então escreveria algo bonito pra caralho.



Escrito por Renato Tardivo às 01h49
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Pastel

 

         Em recente conversa com um amigo, falávamos sobre pessoas do passado. Ele então me elucidou, leitor não me lembro de quem, uma sensação que experimento recorrentemente. O carinho por alguém do passado é proporcional à potência de história nossa que este alguém carrega.

         Nada mais verdadeiro. Merleau-Ponty, filósofo francês do século passado, diz por outras vias que tempo e sujeito não se discriminam. Somos tempo. Estou com preguiça de justificar o filósofo. Além do mais, se o fizesse, o faria mal.

         Mas, confrontando esses dois pensamentos, vislumbra-se o seguinte: que as pessoas do passado são, na verdade, o próprio passado. E se vivemos momentos importantes em determinada época, nada mais natural que nós mesmos guardemos essa época com carinho.

         De algum modo, esta temática é filmada em Coração iluminado, fita de Hector Babenco (1998), a que, aliás, assisti depois – e por acaso – da conversa com o amigo. Minha preguiça se estende a falar do filme. Fica a referência.

         Eu fico é pensando nas pessoas que, algumas vezes, precisam colocar uma pedra em cima do passado para seguir a vida. Mesmo – ou sobretudo – quando se trata de alguém que, nos termos do que aqui está posto, deveria ser guardado com carinho. Para quem será que, na verdade, se fecha a porta?

         No fim das contas, não há escapatória. Se é verdadeiro que somos tempo, e as pessoas do nosso passado são o próprio passado, então, por a+b, fica aqui combinado que nós somos as pessoas do passado.

         Sei que fica mais feio aquele que joga a pedra. De algum modo, o mundo fica mais sem viço. Cor do filme de Babenco. Pastel.



Escrito por Renato Tardivo às 23h33
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(Des)Embarque

 

            Fila para o check-in gigantesca. Muitas pessoas que não voam a trabalho senão pelo prazer das férias. Casais mais velhos, os mais moços, grupos e mais grupos da terceira idade, mas também das outras idades. Fila para o check-in gigantesca.

Súbito, um rapaz começa a abraçar os colegas de vôo. “Ah, amigo, você agora é muito importante para mim”, “Simpática senhora, seremos sempre lembrados por isso”, “Senhores, por que quis o destino, por quê?”. E, aos gritos, ele percorre desatinado toda a fila afirmando categoricamente que aquele avião irá cair. Sim, porque ele tem dessas premonições, sempre teve, garante que nunca falhou.

A reação das pessoas varia. Há alguns poucos que parecem demonstrar indiferença. Há também o outro extremo: pessoas que começam a chorar ou gritar ou mesmo a sair assim sem rumo. Em meio à confusão, enquanto um grupo de passageiros tenta deter pela força o rapaz, suas esposas ou simpatizantes não sabem se aprovam a reação, fingem não ver, ou se tentam deter pela súplica a violência levada a cabo por seus pares.

Nada adianta. O rapaz não se contém. Sua força é maior, talvez porque mais verdadeira. Ele grita, chora, levanta as mãos aos céus, ri. O céu... A reação das pessoas varia. Mas há nelas algo tão genuíno quanto o acesso do rapaz. Estão todos absolutamente borrados de medo.

*

            Na entrada à aeronave, o menino sai logo comemorando: “É minha, a janela é minha, é minha!”. Serelepe, descarta a ajuda da mãe, acomoda-se por si só no devido assento e não sossega até o avião decolar. Quando enfim pode dizer “estou voando”, ele vira todo o corpo para a janela, não desgrudando um instante sequer. Há algo mais importante a fazer. Sem que saiba, como mágica, o menino toca o mundo com os dedos...

*

Chega o dia em que a vida trata de lhe revelar o truque. E, exatamente ao saber que tocava o mundo, este lhe escapa pelas mãos. Como mágica. Mais ou menos como ele escapa daquela fila gigantesca para o check-in. Sua mágica mais verdadeira. Porque este truque já é para sempre desconhecido.            

 



Escrito por Renato Tardivo às 11h56
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Outra saída

 

            A mulher observa todos aqueles monitores com a expressão sofrida de um prazer tosco. Jackie, interpretada por Katie Dickie, trabalha como operadora do circuito interno de câmeras de vigilância na cidade de Glasgow (Escócia). O filme é Marcas da vida (Red road), 2006, longa de estréia da britânica Andréa Arnold – que abocanhou, no último ano, o prêmio do júri em Cannes.

            A vida de Jackie está sombria. As cenas são todas muito escuras. Pesadas. Mas há algo no olhar da personagem que denuncia: nem sempre foi assim. E seus olhos, vidrados nos monitores que transmitem cenas da cidade, parecem estar à procura de apagar, com luz, o incêndio de sua escuridão interior.

            Não dá outra. Ela enfim encontra o monitor que tanto procura. Deixa então a penumbra da sala de trabalho para mergulhar no universo transmitido por uma daquelas telas. E passa para o outro lado das câmeras. Mas, paradoxalmente, o mergulho é ainda mais sombrio. O mundo que Jackie passa a viver alimenta suas fagulhas e a corta por dentro. Um castigo.

            Jackie é escrava. Escrava do passado, de seu algoz, de si mesma. Os prédios da cidade a oprimem; agora, as próprias câmeras do circuito interno a oprimem. É tudo muito pesado. A “janela” mesma do filme – a moldura das cenas – tende mais para o quadrado do que para o retângulo, evidenciando uma trama que se consome, que se pesa sobre si.

Aliás, há nesse sentido uma cena emblemática. Ela e outros dois personagens experimentam o contraponto dessa prisão ao se entregar, diante de uma janela em um andar muito alto de um edifício, à “liberdade” do mundo exterior. Mas trata-se apenas de uma fresta que parece estar lá para ratificar que, por ora, não há outra saída: ou vive-se o confinamento da vida, ou atira-se janela abaixo e vive-se o confinamento da morte. 

A sala escura e silenciosa de onde Jackie inspeciona a cidade talvez seja alusiva da morte. Mas, ao mergulhar em um daqueles monitores, apesar de sombrio (ou por causa disso), ela investe – sim – na vida. Investidas, como vimos, que tomam a direção do sofrimento. Este talvez seja o aspecto mais interessante do filme. Porque a figura que mais lhe causa repugnância é também aquela que mais fascina. Jackie entrega o seu corpo, já tão marcado. Mas ela se permite gozar.

Essa tensão entre amor e ódio, perdão e rancor, crime e castigo, claro e escuro, barulho e silêncio... são as verdadeiras marcas da vida. E não adianta: vivê-las com verdade implica titubear às vezes entre um lado e outro. Ou pode também acontecer de alguém se pegar tentando saber de que lado está e não encontrar a resposta. Mergulho e marcas da vida intrincados em um só corpo. Não há outra saída: só assim se abrem novas perspectivas.

 

     

        

 

  



Escrito por Renato Tardivo às 23h59
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            O comentário vai atrasado, mas antes tarde...

 

     Sem dúvida, conheci a banda Los Hermanos – como muita gente – por causa da música “Ana Júlia” em 1999. O hit (e por extensão a banda) se transformou logo em fenômeno de massa. De fato, a música tinha certa predestinação para isso. Mas, como a maioria desta laia de predestinados, havia em “Ana Júlia” um tempero diferente, não sei bem, uma pimenta que parecia avisar: “Los Hermanos não é bem isso”.

     A pimenta talvez fosse forte demais. Ao menos para mim. Porque não me transformei em apreciador do conjunto assim de imediato. Tempo para o tempero curtir e o sabor pegar mais.

     Fui prestar atenção novamente em Los Hermanos lá para meados de 2001. Desta vez, por causa da obra-prima “Sentimental”. Mas, ainda, segui mais admirador da música do que da banda mesma.

     Depois, alguns anos mais tarde, fui novamente apresentado ao grupo. E enfim me cativei pelo som que eles faziam. Faziam? “Deixa ser como será...”

     Para a sorte dos poucos que vierem a ler este texto, não irei nem analisar a sua linguagem musical (o que faria muito mal, por sinal) como tampouco falar mais da minha relação pessoal com a banda. Basta dizer que nunca fui daqueles fãs de carteirinha. Passei a gostar bastante. E só.

     Mas fiquei muito indignado – muito mesmo! – com a nota veiculada no site do grupo (www.loshermanos.com.br). Não se trata apenas de frustração por um suposto fim. Absolutamente. O pior de tudo é a excessiva, talvez absurda, falta de coerência.

     Porque o caras eram genuínos, talentosos e tudo o mais, e construíram junto com os fãs – os mais fanáticos e mesmo os menos, como eu – uma atmosfera própria. Para muitos, ouvir Los Hermanos era visceral. E não adianta o grupo vir agora dizer que não tem nada com isso. Tem sim.

     Ademais, essa relação sempre parece ter sido muito sadia, posto que transparente; leal. E agora uma “nota” como essa? Os músicos sequer vieram a público, cara a cara, comunicar a decisão. Decisão? O texto veiculado nem claro é. Acabou? Não? Talvez? Ao invés disso, acrescentaram uma desrespeitosa ironia sobre o truco que continuarão jogando. Às favas o truco!

     Para completar a dose cavalar de incoerência, anunciaram dois shows de despedida (desta “pausa”) por um preço absurdo. Por favor!

     Não entendi nada. Faltou cuidado. Parece que a atmosfera, pesada demais, chegou ao limite e resolveu-se jogar tudo para o ar. Às escondidas. Na surdina. Los Hermanos ao limite?

     Uma saída nem um pouco à Los Hermanos... 



Escrito por Renato Tardivo às 19h15
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Por quê?

 

Por que temos sempre a sensação de que o presente não vai deixar saudade, como a que sentimos do passado?

 

Por que os amigos somem justamente quando mais precisamos deles?

 

Por que estudamos, estudamos e estudamos se no fim das contas o que importa é buscar o simples?

 

Por que o medo nunca se vai para sempre?

 

Por que amar, se nunca se soube fazê-lo ao certo?

 

Por que dialogar, se o máximo que até hoje se conseguiu foi monologar?

 

Por que viver, se viver é gastar e gastar é morrer?

 

Esses e muitos outros porquês que se têm procurado elucidar, quando ainda não se descobriu o óbvio: porque sim.



Escrito por Renato Tardivo às 16h55
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Um instante

 

     Ouviu do patrão, que conversava com um colega, “Gente pobre não padece de angústia”.

     Ah, aquilo a deixou entalada.

     “Infelizmente gente pobre não se mete em conversa de patrão”, ela quis dizer, “isso é que sim”.

     “Padece” ela não sabia o que significava, mas “angústia”... E intuiu com acerto o sentido do comentário.

     Em seguida ele anunciou, em tom de grande novidade, que iria pesquisar as vicissitudes maléficas do saber: “Ora, bagagem cultural traz sofrimento, meu caro. É natural”. E nem parecia que falava ao telefone.

     Ela já limpara o outro cômodo, ele ainda discursava. Carregando um balde cheio, ela passou pelo corredor. “Dramas da Pós-Modernidade, companheiro, é a contemporaneidade!”

     Aproveitou a passagem para lhe lançar o olhar. Seus dentes amarelados e esmaltados de licor lembraram-na os degraus da escada.

     Estava para descer quando veio de trás: “Só um instante”. Sabia que era com ela.

     Havia um pouco de licor sobre a mesa. Ia manchar. Devia ter mais cuidado da próxima vez, faça o favor!

“Faça o favor o quê!?” Estava entalada. Obedeceu, limpou. Em silêncio. Um robô.

“Desculpe-me, aborrecimentos cotidianos... Mas, sim, onde estávamos?” E, entre um gole e outro de licor, absolutamente não parava de falar.

Outra vez no corredor. Ela abaixou para pegar a tralha que levaria para baixo. Viu-se refletida na água suja do balde: entalada, fluida, diluída.

“Quem muito procura acaba achando, rá, rá, rá”, ainda ouviu diante da escada. Mas não era com ela. Aquele balde nunca esteve tão pesado.

Desceu.



Escrito por Renato Tardivo às 10h40
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ohlepse on sarvalaP

 

Vontade de dar cara nova a este blog. Fazer dele um espaço para escrever com maior regularidade. Voltar à freqüência semanal da qual ele já foi adepto. E, desta vez, com menos colagens, frases soltas etc. Quero produzir um texto de verdade por semana.

Não quero dizer, com de verdade, de qualidade. Longe disso. Minha vontade é que este blog se transforme em um espaço que eu deva, bem ou mal, minimamente preencher.

Isso talvez signifique que haverá mais crônicas – e menos literatura – por aqui. Talvez. Nesse caso, eu me forçaria a buscar mais informações sobre o “fora”. Estou cansado do “dentro”. É fato.

Mas e daí? Quem se importa?

Olhe, eu sempre gosto que comentem por aqui. Ou por ali – que comentem. Às vezes me pego tentando lembrar o número que o contador marcava antes de minha última entrada aqui. Se bem que não tenho controlado muito isso, não. E eu já controlei alguma vez alguma coisa?

     Agora, apesar do inegável desejo em ser lido, tenho de admitir que estas palavras se dirigem a si mesmas. Sou teimoso: não vou dar o braço a torcer logo no primeiro texto desta nova fase.

     Já que a meta é falar mais sobre o “fora”, nada como deixar que este texto me enrole escrevendo sobre si mesmo. Minhas palavras precisam se enganar mais.

     Mas acho que o espaço está minimamente preenchido. Basta. Comecei o texto sabendo aonde precisaria chegar. E, mesmo que pelo avesso, é na vontade de dar cara nova a este blog.



Escrito por Renato Tardivo às 00h44
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Trecho do conto "O forjador"

    "Sempre detestei aquele trabalho. 'Enfadonho', diria junto de uma tosse peculiar o meu avô. Eu, que não era culto, não tinha como saber o significado daquela palavra estranha. Na escola, era mediano por excelência: jamais fui reprovado, jamais obtive um 8 sequer. Mas bobo eu não era, e de cultura tossida, como o legado do meu avô, nunca quis saber."

 



Escrito por Renato Tardivo às 09h53
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